O Deus Refém da sua Criação
Eis uma das metáforas possíveis: Era uma vez um cientista que desejou construir um avião que pudesse voar sozinho. Seu professor e mestre o desaconselhou. Embevecido pela pretensão criativa o cientista fez valer o seu poder mental. Contudo, o avião recém-construído, para sua surpresa, começou a voar independente da sua vontade. Percebendo o perigo, o criador fez-se piloto da própria criação. Nessa transição, enfraqueceu a si mesmo, machucando-se bastante, a ponto de não poder pilotar de modo conveniente a própria criação. Com o tempo, enlouquecido pelo sofrimento e desgastado por força dos inúmeros desafios, o piloto resolveu criar, a partir de si mesmo, uma tripulação de clones adaptados às funções que o pudesse ajudar a manter o avião no ar. A essa altura, o seu professor resolveu também ir para o sacrifício e se fez co-piloto, ainda que contra a vontade do piloto. Alguns membros da tripulação, padecendo da mesma doença, começaram a ter problemas com o piloto e com co-piloto, que tudo fazia para ajudar ao piloto e manter o avião em bom curso, até que fossem criadas as condições para o pouso seguro. O piloto e a tripulação resolvem, então, criar, a partir si mesmos, uma classe de passageiros com a intenção de que, apesar de inferiores, entre os assim considerados, alguns pudessem se habilitar a ajudar. Padecendo, porém da mesma doença dos seus criadores, passageiros, tripulação e piloto começaram a ter problemas entre si, e de todo tipo, e o avião mal consegue se sustentar no ar. O co-piloto disfarça-se entre os passageiros para orientá-los quanto ao que fazer. É descoberto e expulso do avião, mas antes, avisa: “ainda que não o desejem ou mesmo compreendam, é imperioso que eu retorne para dividir o comando a fim de que possamos todos seguir em rota segura e pousar em paz”. Com tempo, o piloto leva a sua doença a grau extremo de insanidade, mas não abre mão do comando. O estado da tripulação e de boa parte dos passageiros se deteriora sobremaneira. Resumo: “apertem os cintos porque o piloto, apesar de não ter sumido, adoeceu e precisa de ajuda”.
JAN VAN ELLAN
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